Endividamento de R$ 7,9 bilhões de duas gigantes de insumos — Agrogalaxy e Belagrícola — somado a clima instável e custos pressionados acendeu o alerta no Norte do Paraná. Com grandes revendas em recuperação judicial e extrajudicial reduzindo o financiamento a prazo, produtores buscam saídas fora do sistema financeiro tradicional para garantir o custeio da próxima safra.
O aperto começou a ganhar corpo em 2024. A Agrogalaxy pediu recuperação judicial em setembro daquele ano, com dívida estimada em R$ 4,1 bilhões — cerca de R$ 990 milhões com bancos e R$ 1,5 bilhão com fornecedores. O plano foi aprovado pelos credores e homologado pela Justiça de Goiás no primeiro semestre de 2025. Em dezembro de 2025, a Belagrícola, controlada pelo grupo chinês Pengdu e sediada no Norte do Paraná, protocolou pedido de recuperação extrajudicial com passivo de R$ 3,8 bilhões, sendo R$ 2,2 bilhões em dívidas quirografárias; a empresa acumulou mais de R$ 1 bilhão em créditos vencidos com produtores em dois anos, e a Justiça do Paraná rejeitou o plano apresentado no início de 2026.
O impacto é direto no campo: revendas que também funcionavam como financiadoras — ao ofertar insumos a prazo em troca de grãos na safra seguinte — reduziram ou suspenderam operações, empurrando parte dos produtores para linhas bancárias tradicionais, mais burocráticas e, em geral, menos adaptadas à sazonalidade e à volatilidade do agro. Segundo levantamentos do setor, reestruturações de Agrogalaxy e da rede Lavoro já cortaram mais da metade das dívidas originais, de cerca de R$ 7,1 bilhões para pouco menos de R$ 3 bilhões.
Custos em alta e clima adverso
A conjuntura externa também mudou de patamar. A retomada do conflito entre Estados Unidos e Irã, em julho de 2026, voltou a pressionar preços de fertilizantes e o frete internacional — o Brasil importa entre 85% e 88% do que consome nessa área — justamente quando começa o planejamento da safra de verão, a partir de setembro.
Em anos eleitorais, a instabilidade cambial tende a se intensificar, afetando diretamente quem depende do mercado externo. O país é hoje o maior exportador mundial de soja, respondendo por cerca de 60% do comércio global do grão, o que amplia a sensibilidade do setor a choques de preços e de câmbio.
No clima, os efeitos de ciclos como o do Super El Niño seguem presentes, com excesso de chuva em algumas regiões e estiagens severas em outras. Apesar disso, o Brasil mantém uma das menores taxas de cobertura de seguro rural do mundo: 10% da área plantada tem apólice, contra 60% nos Estados Unidos, segundo dados da Revista Apólice de 2024. No modelo tradicional, que depende de perícia em campo após o sinistro, a indenização costuma levar de 180 a 210 dias para sair.
Novas saídas: crédito estruturado, barter e seguro paramétrico
Com o crédito mais escasso e o risco crescente, ganham espaço novos modelos de financiamento, apoiados por bancos de investimento e com maior capilaridade regional. O Norte do Paraná entrou no radar do Grupo Ceres Investimentos (GCI), gestora especializada em crédito estruturado para o agronegócio que tem o BTG Pactual como sócio — o banco pode deter até 49,9% do capital, em parceria voltada a ampliar a presença regional.
Fundado há sete anos, o GCI mapeou 12 “capitais do agro” para regionalizar a atuação e abrir unidades físicas entre 2026 e 2027. Londrina foi escolhida pelos números do campo no estado; a companhia instalou uma superintendência para acompanhar o Paraná de perto e se posicionar próxima a Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul.
“O produtor e as empresas do agro não estão sem opção, o que falta, muitas vezes, é um modelo financeiro que entenda a sazonalidade e o risco específico de cada operação, em vez de tratar o crédito rural como um produto padronizado de banco”, afirma Diogo Ruas Santos, diretor de marketing estratégico, inteligência de mercado e dados do Grupo Ceres.
Entre as frentes em avanço, está a antecipação de recebíveis de safra para empresas com faturamento acima de R$ 100 milhões por ano e também para operações a partir de R$ 10 milhões — um recorte que muitos financiadores tradicionais não atendem. Segundo levantamento do GCI, num raio de até 250 km de Londrina há 264 municípios e cerca de 127,6 mil propriedades rurais mapeadas, das quais mais de 14,9 mil são grandes ou muito grandes, formando uma base heterogênea que vai do pequeno produtor à agroindústria.
Na comercialização, a gestora atua com trading de grãos, usando a própria commodity como moeda de troca em operações de barter, além de oferecer estruturas de armazenagem, preço travado e escoamento da produção — um reforço num momento em que o fechamento de revendas reduziu o número de compradores e financiadores disponíveis.
Na frente de seguros, aposta no seguro paramétrico, modalidade ainda incipiente no país: o número de apólices saiu de 4 em 2021 para 171 em 2024, segundo estudo da FGV Agro, partindo de base muito pequena. “Diferentemente do seguro tradicional, a indenização é acionada automaticamente a partir de um índice pré-definido, como volume de chuva, sem depender de perícia em campo, o que reduz o tempo de resposta ao produtor em cenários de excesso ou falta de chuva”, explica Diogo. O grupo também oferta contratos que travam preços de commodities diante de choques como o do petróleo e mantém uma área de inteligência de mercado dedicada a monitorar risco geopolítico.
Do ponto de vista de solidez, o apoio do BTG Pactual — com mais de sete décadas de mercado e ampla capacidade de funding — é apontado pela companhia como diferencial na seletividade atual do crédito. Há ainda investimento em tecnologia de monitoramento de risco, com imagens de satélite para lavouras e câmeras e drones em operações de confinamento.
Enquanto o crédito via revendas se reorganiza e reestruturações cortam passivos relevantes, produtores do Norte do Paraná ajustam o planejamento para a safra de verão. Entre juros, câmbio, clima e logística, soluções como crédito estruturado, barter e seguro paramétrico tendem a ganhar tração regional — num jogo em que rapidez de resposta e compreensão do risco farão diferença.
Fonte: Redação
