Claudio Natalino Bagnolli

A Flauta e as grandes invenções!

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A necessidade é a mãe da invenção, certo?
Bem, nem sempre.

Há aproximadamente 43 mil anos, um jovem urso-das-cavernas morreu nas colinas na fronteira noroeste da atual Eslovênia.
Mil anos depois, um mamute morreu no sul da Alemanha.
Alguns séculos depois, um abutre também morreu nas proximidades.
Não sabemos quase nada sobre como esses animais morreram, mas essas diferentes criaturas dispersas no tempo e no espaço compartilharam um destino notável.
Depois da sua morte, um osso de cada um dos esqueletos foi transformado por mãos humanas em uma flauta.
Pense nisso por um segundo.
Imagine que você é um homem das cavernas, há 40 mil anos.
Você dominou o fogo.
Você construiu ferramentas simples para caçar.
Você aprendeu a fazer vestes com a pele de animais para manter-se aquecido no inverno.
Qual será sua próxima invenção?
Parece ilógico inventar a flauta, uma ferramenta que cria vibrações inúteis nas moléculas do ar.
Mas foi exatamente isso que nossos ancestrais fizeram.
E isso se tornou surpreendentemente comum na história da inovação.
Algumas vezes as pessoas inventam coisas porque elas querem se manter vivas ou alimentar seus filhos ou conquistar uma aldeia próxima.
Mas, frequentemente, novas ideias surgem no mundo simplesmente por serem divertidas.
E o mais estranho de tudo: muitas dessas invenções divertidas, mas aparentemente frívolas, acabaram por desencadear transformações muito importantes na ciência, na política e na sociedade.
Veja o que pode ser a invenção mais importante dos tempos modernos: os computadores programáveis.
A história padrão é que os computadores vêm de tecnologia militar, pois os primeiros computadores foram projetados especificamente para decodificar códigos durante a guerra ou calcular trajetórias de foguetes.
Mas, na verdade, a origem do computador moderno é muito mais divertida, e até musical, do que você imagina.
A ideia por trás da flauta, de assoprar ar através de tubos para produzir sons, foi finalmente modificada para criar o primeiro órgão há mais de 2 mil anos.
Alguém teve a brilhante ideia de provocar a emissão de sons pressionando pequenas alavancas com os dedos, inventando o primeiro teclado musical.
Bem, os teclados evoluíram do órgão para o clavicórdio, o cravo e o piano até meados do século 19, quando um grupo de inventores finalmente teve a ideia de usar um teclado para gerar letras, em vez de sons.
De fato, a primeira máquina de escrever foi chamada originalmente de “o cravo de escrever”.
As flautas e a música levaram a avanços ainda mais poderosos.
Há aproximadamente mil anos, no auge do Renascimento islâmico, três irmãos em Bagdá projetaram um dispositivo que era um órgão automatizado.
Eles o chamaram “o instrumento que toca sozinho”.
Bem, o instrumento era basicamente uma caixa de música gigante.
O órgão podia ser treinado para tocar várias músicas usando instruções codificadas por meio de pinos colocados em um cilindro giratório.
Para a máquina tocar uma música diferente, era só trocar um cilindro por outro com uma codificação diferente.
Este foi o primeiro instrumento desse tipo.
Ele era programável.
Bem, conceitualmente, esse foi um imenso salto adiante.
Toda a ideia de “hardware” e “software” se tornou possível pela primeira vez com essa invenção.
E esse conceito incrivelmente poderoso não veio para nós na forma de um instrumento de guerra, conquista ou necessidade, de forma alguma.
Ele veio do estranho prazer de ver uma máquina tocar música.
De fato, a ideia de máquinas programáveis foi mantida viva exclusivamente pela música por aproximadamente 700 anos.
Nos anos 1700, máquinas que faziam música viraram os brinquedinhos da elite parisiense.
Em performances, foram usados os mesmos cilindros codificados para controlar os movimentos dos chamados autômatos, um tipo primário de robô.
Um desses robôs mais famosos foi, adivinhem, um flautista automatizado projetado por um brilhante inventor francês chamado Jacques de Vaucanson.
E enquanto Vaucanson projetava seu robô músico, ele teve outra ideia.
Se você pode programar uma máquina para produzir sons agradáveis, por que não programá-la para tecer lindos padrões de tecidos?
Em vez de usar os pinos do cilindro para representar notas musicais, eles representariam fios de diferentes cores.
Se você quisesse um novo padrão para seu tecido, bastava programar um novo cilindro.
Esse foi o primeiro tear programável.
Na época, era muito caro e demorado produzir cilindros, mas meio século depois outro inventor francês chamado Jacquard teve a brilhante ideia de usar cartões de papel perfurados em vez de cilindros de metal.
O papel se mostrou uma forma muito mais barata e flexível de programar o dispositivo.
Esse sistema de cartões perfurados inspirou o inventor vitoriano Charles Babbage a criar sua máquina analítica, o primeiro computador verdadeiramente programável já projetado.
E cartões perfurados foram usados por programadores de computador até o final da década de 1970.
Então, faça-se a seguinte pergunta: o que realmente tornou o computador moderno possível?
Sim, o envolvimento militar é uma parte importante da história, mas a invenção de um computador também exigiu outras peças: caixas de música, robô de brinquedo tocador de flauta, teclados de cravos, padrões coloridos de tecelagem, e essa é só uma pequena parte da história.
Existe uma longa lista de ideias e tecnologias transformadoras que vieram de brincadeiras: os museus públicos, a borracha, a teoria das probabilidades, os seguros e muito mais.
A necessidade nem sempre é a mãe da invenção.
Um estado de espírito lúdico é fundamentalmente exploratório e busca novas possibilidades no mundo ao nosso redor.
E, devido a essa busca, muitas experiências que começaram por simples prazer e diversão por fim nos levaram a grandes avanços.
Bem, eu acho que isso tem efeitos na forma como ensinamos as crianças na escola e como encorajamos a inovação em nossos locais de trabalho, mas pensar sobre o brincar e o prazer dessa forma também nos ajuda a ver o que vem a seguir.
Pense nisto: se você estivesse sentado em 1750 tentando imaginar as grandes transformações na sociedade que ocorreriam nos séculos 19 e 20, máquinas automatizadas, computadores, inteligência artificial, uma flauta programável que entretinha a elite parisiense teria sido uma pista tão poderosa quanto qualquer outra coisa da época.
Na melhor das hipóteses, parecia um divertimento, nada que pudesse ser útil de alguma forma séria, mas acabou se tornando o início de uma revolução tecnológica que mudaria o mundo.
Você encontrará o futuro naquilo que mais diverte as pessoas.

Steven Johnson nos mostra como algumas das idéias mais transformadoras e tecnológicas, como o computador, não emergiram da necessidade, mas do prazer estranho de jogar.
Assista esta cativante e ilustrada exploração da história da invenção.
Você vai encontrar o futuro onde as pessoas estão se divertindo mais.